Poema
Saudade
2021
Saudade é um prato que se come quente Queima os beiços mas não te enche. Saudade é ultrapassar a barreira, Entre o consciente e o imaginário Buscar o inalcançável e alcançar o indesejável. No luto, O vazio gélido assola mais uma vez os reprimidos. Seja por um dia, um mês ou para sempre, A dor , continuamente, rasga o véu que protege o coração. Apenas o tempo tende ajudar, Nada cura a saudade, mas de tanto doer Sob a melodia das sete trombetas, A dor se torna uma só com a alma, E amargurada, não se sente mais nada. Na lembrança, A inexperiência e a rapidez mascararam o tic tac As coisas se passaram tão rápido que não é possível alcançar. Só no futuro percebes o que perdera e que talvez nunca irá voltar, Momentos, bens, pessoas, lugares, lembranças Tudo vai embora, e o que resta é o cartão de visitas da memória, a saudade. Alguns tendem à nostalgia, outros ao arrependimento. Mas tudo tende ao mesmo, o sofrimento. No amor, O ar esquenta, as mãos ficam inquietas, o peito dói. Sem fôlego, sente-se claustrofóbico. A sensação é de estar em uma prisão perpétua, E todos os dias é um regime de solitária. Ansie sau dade
Leitura
Análise literária
O poema mais ambicioso do conjunto em estrutura: define um conceito e depois o examina em três domínios — luto, lembrança, amor — cada um com sua estrofe. É um texto de método, quase ensaístico.
A abertura funciona por deslocamento de provérbio. A saudade como prato que se come quente inverte a expressão feita, e o complemento é o que dá liga: queima os beiços mas não te enche. Alimento que fere e não sacia é a definição inteira, entregue em dois versos.
A estrofe do luto encontra sua imagem mais precisa na afirmação de que nada cura a saudade, mas de tanto doer a dor se torna uma só com a alma. Não é superação: é fusão. E o que resta depois não é alívio, é amargura sem sensação — que é pior.
A estrofe da lembrança traz a formulação que melhor resume o poema: o que resta é o cartão de visitas da memória. A imagem é doméstica e exata — o cartão fica quando a pessoa vai embora. A estrofe do amor troca o registro para o corpo, com a claustrofobia e a prisão perpétua, e o texto termina com a própria palavra partida ao meio, que é o gesto formal mais expressivo do poema.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.