Poema

Vazio

12 de setembro de 2021

Hoje você morreu um pouco mais do que ontem. Naquela hora, quando deixou de dizer o que queria, você morreu. E cada vez mais, quanto mais você morre, mais vazio você fica. Ontem, também, você morreu. Mentiu para si mesmo, tentou enganar o coração e se perdeu. Superar te traz o sopro virtuoso do mundo, te dá a chance de amar novamente! Totalmente perdido, você tende ao vazio, o vazio lhe abraça. É um abraço frio, mas foi o mais aquecido que já recebera na vida. Pare de morrer, seu corpo não suporta mais o vazio…

Leitura

Análise literária

Prosa poética em blocos curtos, com espaços largos entre eles. O branco da página faz parte do texto: cada afirmação fica sozinha, e o silêncio ao redor é o vazio de que o poema fala.

A operação central é ressignificar o verbo morrer. Aqui morrer não é um evento único, é um acúmulo — morre-se um pouco mais do que ontem, e cada vez que se deixa de dizer o que se queria. A morte vira sintoma de omissão, e não de fim.

O paradoxo que sustenta o texto está no abraço do vazio: frio, mas o mais aquecido que já se recebera na vida. É um oxímoro que diz muito sobre quem fala — não é que o vazio conforte, é que nada mais chegou perto.

A frase final quebra a segunda pessoa em que o poema todo se apoiava, e vira ordem: pare de morrer. Depois de cinco blocos de constatação, aparece o único imperativo do texto, e as reticências que o seguem tiram dele a certeza. É pedido, não comando.

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Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.