Poema
Passou!
13 de março de 2017
O silêncio grita como a morte, Surdo, você. Foge, FOge, FOGe, FOGE, eu. Narciso perdeu seu espelho Mergulho no fundo do meu ser. Vagões cheios de gente Tempo perdido. Tudo em vão. Desperdício de alegria. Hoje eu choro mas amanhã passou. Acho que perdi o meu trem. Tudo passageiro, Inclusive. Eu
Leitura
Análise literária
Dois blocos de verso livre com forte trabalho sonoro. É o poema mais experimental do conjunto na superfície da língua, e o que mais depende de ser lido em voz alta.
O terceiro verso é o achado formal: a mesma palavra repetida quatro vezes com maiúsculas migrando de posição. A grafia encena o que descreve — a fuga se acelera e se desorganiza dentro da própria palavra, até virar grito. Nenhuma explicação seria tão eficaz.
A referência a Narciso que perdeu o espelho inverte o mito: sem superfície onde se ver, resta mergulhar. E mergulhar no fundo do próprio ser, num mito que termina em afogamento, carrega o risco sem precisar enunciá-lo.
A segunda estrofe muda para o registro do desperdício, com frases nominais curtas que imitam o esgotamento. O fecho é o momento mais engenhoso: tudo passageiro, inclusive — e o ponto depois de inclusive corta a frase. O Eu isolado no verso seguinte, sem pontuação, chega como o que sobrou. Passageiro, no contexto do trem, é também quem viaja.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.