Poema
Tempo
2018
Quanto mais penso mais vazio fico O vento frio bate na nuca e me diz que passou Realmente passou 1,2,3,4,2,2,3,4 A estação da vida chegou e me deixou Vazio Um cálice sem vinho, uma flor sem espinho PAI venha me buscar no trem. Já faz tempo que não ouço seu lindo silêncio Tento não pensar, juro Quanto mais penso mais vazio fico Nunca o frio passou tão batido Todo dia eu só penso em poder parar 4,3,2,2,4,3,2,1 A culpa não é minha, perdi o trem para o sul O tempo foi muito curto, não consegui abraçar A pessoa que amava também não estava lá Somente o vazio consegue me abalar Mas a chama do amor vem pra segurar Sou Filho do medo, irmão da covardia Mas quem sabe um dia O tempo passe mais devagar.
Leitura
Análise literária
Poema com estrutura de canção: refrão, contagens numéricas entre estrofes, dicção falada. As sequências de números funcionam como marcação de compasso — quem lê é forçado a contar, e contar tempo é o assunto do texto.
O verso que abre e retorna — quanto mais penso mais vazio fico — inverte a expectativa de que pensar preencha. É a tese do poema, e o fato de reaparecer no meio da terceira estrofe confirma que o pensamento não avançou.
O trem organiza a metáfora inteira: a estação da vida, o trem perdido, o pai chamado para buscar. O pedido dirigido ao PAI em caixa alta, seguido da menção ao lindo silêncio que não se ouve mais, é o ponto em que o poema deixa de ser sobre tempo e passa a ser sobre ausência — sem que precise dizê-lo.
As contagens invertem antes da última estrofe, de crescente para decrescente, e a estrofe final assume as culpas em série. A autodefinição como filho do medo e irmão da covardia estabelece uma genealogia de afetos, e o desejo final — que o tempo passe mais devagar — é o único pedido que o poema faz, sabendo que não será atendido.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.