Poema
Ódio
11 de janeiro de 2012
Severino, tu és tão grande! Como o imenso sertão, Que abrange aqueles que estão à margem, Não dos rios, Mas do desespero. Desespero esse que gera vida, Mesmo em meio a morte de milhões de severinos, tu encontras a saída. O Rio, que mesmo sujo salva aquele irmão que não tem nada para odiar. Eu contudo, Vagando moribundo. Olho para ti e odeio odiar, O ódio me assola. Pois mesmo sem ninguém lhe estender a mão, Tu não paras de caminhar.
Leitura
Análise literária
Diálogo com a tradição literária brasileira. Severino é o retirante de João Cabral, e o poema assume a dívida no vocativo inicial, tratando-o não como personagem mas como interlocutor vivo.
A construção mais forte está na primeira estrofe: os que estão à margem não dos rios, mas do desespero. A frase reaproveita a geografia do poema de origem e a desloca para o campo moral, num único enjambement.
A segunda estrofe formula o paradoxo que sustenta o texto — o desespero que gera vida. E a terceira mantém o rio como agente ambíguo: mesmo sujo, salva. O irmão que não tem nada para odiar não é elogio à resignação; é constatação de que a pobreza extrema retira até o objeto do ódio.
A virada é o eu. Depois de três estrofes sobre Severino, o falante se coloca vagando moribundo, e confessa o que o título anuncia: odeia odiar. O que ele inveja não é a condição do outro, é a capacidade de seguir caminhando sem que ninguém estenda a mão. O poema termina admitindo que o ódio é dele, e que a admiração é o que o torna insuportável.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.