Poema
O Urso
agosto de 2025
Todos os dias, no inverno, eu te vejo entre as árvores. Um animal selvagem, indomável, que a cada ano se aproxima da minha casa. À noite, escuto teus grunhidos do lado de fora — há sussurros neles, pedidos que não ouso repetir. O frio consome minhas esperanças. Em preparação, armei-me com tudo que havia para te conter. Às vezes, o estampido da carabina te afugentava, e bastava. Mas você ficou mais feroz. Por que não as outras casas? Por que justo a minha? Teus olhos — poços escuros — não piscam. Hoje, darei um fim a você. Enquanto minha mulher e minha filha brincam no parquinho do quintal, eu te vejo se aproximando. Desta vez, armado até os dentes, não recuarei. Deus, contemple a força da tua criação. O frio após os disparos inúteis é desesperador. Você não terá minha família. O urso monstruoso, mesmo ferido, avança. Eu, com os ossos fraturados e a moral esmagada, reúno minhas últimas forças. Agarro teu pescoço e, como uma corda apertada, vou te estrangulando — lentamente — mesmo ao preço da minha vida. La vem o outono Minha família a salvo. O urso cai. Eu, junto.
Leitura
Análise literária
Narrativa em cinco movimentos, com estrutura de conto: aparição, preparação, enfrentamento, luta, desfecho. O verso livre e longo aqui serve à prosa da ação; o poema quer contar, e não cantar.
O urso é a única presença nunca nomeada por aquilo que representa, e essa recusa é o que o mantém eficaz. Ele é sazonal (chega sempre no inverno), progressivo (a cada ano mais perto), e não recua diante do que antes o afastava. A pergunta central — por que justo a minha casa — é a pergunta de quem não escolheu o próprio adversário.
A imagem que fixa o poema são os olhos: poços escuros que não piscam. Poço é profundidade sem fundo visível, e o não piscar retira do animal qualquer traço de hesitação. Contra isso, as armas humanas aparecem como o que são — estampido, carabina, disparos inúteis.
O desfecho é uma vitória que custa o vencedor. O corpo a corpo substitui a arma, e o estrangulamento lento inverte os papéis: o homem passa a fazer ao urso o que o urso fazia ao inverno dele. Os três versos finais são os mais curtos do poema, e a brevidade é o luto. O outono chega, a família está a salvo, e a conjunção final — eu, junto — entrega o preço sem adjetivo nenhum.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.