Poema
Conquista
19 de agosto de 2025
Hei de tocar o intangível, o divino, em tua alma desvendar o mistério oculto; emaranhar-me em teu ego, secreto labirinto, cuja entrada é visível, mas a saída é vulto — e, se consentes, mapear-te a pele como quem lê um manuscrito. Tenho fome das palavras que silencias, daqueles gestos teus que não mostras, mas insinuas, do calor oculto em passos que esfria quando perto estou, mas que em sonhos perpetuas — onde tua boca completa o que tua voz recusa. É em ti que me intriga o sorriso, um entrelace de olhares que desperta os sentidos; por ora, contento-me com a lembraça de teu beijo, os sussurros e o toque de dedos que se encontram sobre neste poema. Ansiar pela febre das almas confundidas, deixando a carne ao tempo, à mera transitoriedade; porque, no fundo, não é a ternura que me guia, mas a sede doce, prazer da vulnerabilidade — e o arrepio que te visita quando o sussurro encosta na saudade. Sentir-te a alma em meus braços entregue, e assim perder-me em ti, rendido e perplexo; pois desejar-te não é um querer que se segue, é dissolver-me inteiro nesse enigmático nexo — mas, agora, basta o arrepio rente à pele, um convite sem palavras.
Leitura
Análise literária
Cinco quintilhas de verso longo, com esquema de rimas alternadas frouxo, na tradição do poema erótico-metafísico. O vocabulário é deliberadamente elevado (intangível, secreto labirinto, enigmático nexo) e essa elevação é o que mantém o desejo no campo da contemplação.
O poema constrói o corpo do outro como texto a ser lido: mapear a pele como quem lê um manuscrito. A metáfora é sustentada — há o que a boca completa e a voz recusa, há palavras silenciadas, há gestos insinuados e não mostrados. O desejo aqui é hermenêutico antes de ser físico: quer decifrar.
A quarta estrofe faz a declaração mais precisa do conjunto, e é uma correção do que se esperaria: não é a ternura que guia, mas a sede doce, o prazer da vulnerabilidade. O poema admite que deseja o outro exposto, não o outro confortável — e essa honestidade é o que o separa do lugar-comum romântico.
O último verso recua de propósito. Depois de cinco estrofes de dissolução e entrega, o poema se contenta com o arrepio rente à pele. É a conclusão coerente de um texto que se chama Conquista e nunca conquista nada: o convite sem palavras é tudo o que existe, e o poema é o próprio convite.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.