Poema
Noel
11 de dezembro de 2020
Querido papai noel, De natal desejo um taça de cristal. Cristal puro, frágil e brilhante, que beija meus lábios enquanto dançamos uma bela canção natalina. Tocam os sinos, e este seu carvão maldito espalha seu pó em minhas amadas roupas. De sua ríspida escuridão surge o medo, que enforca e sufoca meus sonhos até sobrarem somente cristais estilhaçados. O carvão do ano passado ainda arde. Maldito Noel. Minha lareira estará sempre acesa. Do calor, nascem os mais belos cristais. Farei eu mesmo minha taça, para que eu, sozinho, possa brindar com meus demônios.
Leitura
Análise literária
Poema em bloco único, sem estrofes, escrito como carta. A moldura epistolar — querido papai noel — instala um tom infantil que o texto desmonta verso a verso, e é desse contraste que ele vive.
A oposição estruturante é cristal contra carvão. O cristal é o pedido: puro, frágil, brilhante, que beija os lábios. O carvão é o que se recebe: espalha pó nas roupas amadas, e de sua escuridão surge o medo que enforca. A tradição do carvão como castigo de quem não mereceu presente é usada com precisão — o poema fala de quem se convenceu de não merecer.
O verso sobre o carvão do ano passado que ainda arde é o eixo do texto. Carvão que arde não é castigo inerte, é combustível — e é aí que o poema vira. A maldição dirigida ao Noel vem logo depois, curta e isolada, como quem termina uma discussão.
O fecho converte o castigo em matéria-prima: se a lareira está sempre acesa e do calor nascem os cristais, então o carvão recebido produz o presente que foi negado. Fazer a própria taça e brindar sozinho com os demônios é autossuficiência e solidão na mesma imagem — e o poema não escolhe entre as duas.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.