Poema
Durma
4 de agosto de 2020
Já chega, MEUS Pensamentos Se o topo é realmente tão alto... e com um estalar de DEDOS Tudo se vai! Será eu ou o mundo está CONSTANTEMENTE Tentando nos substituir... Vai dormir, seus dedos DOEM
Leitura
Análise literária
O poema mais visual do conjunto. A tipografia é o método: palavras isoladas em caixa alta, versos de uma palavra só, espaços largos entre blocos. É insônia transcrita como diagramação.
O vocativo dirigido aos próprios pensamentos, com o MEUS destacado, estabelece o conflito do texto: o falante disputa a posse do que se passa na própria cabeça. Chamar de meus algo que não obedece é a contradição que o poema não resolve.
O centro é uma fantasia de aniquilação — o estalar de dedos que faz tudo ir embora, com DEDOS isolado antes do resultado. A pergunta que vem depois é a mais inquietante: será eu ou o mundo que tenta constantemente nos substituir. A ambiguidade do nos, que pode incluir os pensamentos ou o leitor, é deixada aberta.
O fecho troca a metafísica pelo corpo. Depois de estalar dedos e substituir mundos, a ordem final é ir dormir porque os dedos doem — provavelmente de escrever. O poema termina se reconhecendo como sintoma daquilo de que fala.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.