Poema
Espinhos
2021
Eu sou como um cacto, Dureza e perigo são meu cartão de visita. Em meio ao deserto me sinto desidratado, hoje em dia a água é que nem amor! muitos procurando, mas poucos para compartilhar. Era assim que eu pensava, vivia a vida com a cara enrugada minha pele verde refletia meu ódio alheio, Humor verde, esverdeado, desvairado. Até que um dia, no deserto mais quente Fez-se presente uma única nuvem azul, Era pequena, não demonstrava perigo algum. Eu petulante, resolvi escutar meus espinhos. Eles diziam que depois da última chuva, jamais cairia outra gota no deserto. teria que aprender a viver sob o sol e nada mais. A nuvem azul se aproximava cada vez mais, e quando menos esperava, aquela pequena nuvem se tornou uma tempestade. Nunca estive tão feliz, tanta água! Meus espinhos se amoleceram, minha pele foi respaldada e minha alma lavada. Mas esqueci-me de que sou um cacto. e com tanta água poderia me afogar. Mas isso não me preocupava mais, eu desejava cada gota daquela nuvem azul. Para nao me afogar, então, só me restou dançar ao som dos trovões transpirando ofegante o excesso de água, Mantendo nossa melodia viva por toda eternidade. o deserto deixará de existir…
Leitura
Análise literária
Alegoria do cacto sustentada em quatro movimentos, com verso livre longo e sintaxe coloquial. O poema conta uma história e a conta em ordem — o que faz dele o mais legível do conjunto, e não por acaso um dos mais completos.
O primeiro movimento estabelece a autoimagem: dureza e perigo como cartão de visita. A comparação entre água e amor no deserto — muitos procurando, poucos para compartilhar — é o tipo de verso que parece simples e carrega a economia inteira do poema.
O segundo movimento é onde está o achado do texto: os espinhos falam. Não são só defesa, são conselho, e o conselho é pessimista — depois da última chuva nunca mais cairá outra gota. O poema identifica com precisão o mecanismo pelo qual a couraça se justifica sozinha, prevendo a seca que garante a própria necessidade.
O desfecho recusa a resolução fácil. A chuva chega, os espinhos amolecem — e aparece o risco novo: um cacto com água demais se afoga. Que o poema escolha dançar em vez de se proteger, e que aceite o afogamento como preço, é o que o separa do final feliz. O deserto deixará de existir não é promessa de segurança; é aceitação de que a paisagem inteira vai mudar.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.