Poema

Ninguém

outubro de 2025

Concreto é o meu colchão de nuvens gastas. A cidade passa por cima de mim como uma maré de pneus. Eu tenho um nome. A chuva conhece meu rosto melhor que minha mãe. O vento me chama pelo apelido que não conto pra ninguém. Carrego sacolas como quem carrega lembranças furadas. Na marquise, o cobertor tem cheiro de histórias que não acabam. No bolso, um isqueiro cansado; na boca, o gosto de fuga. A pedra canta baixo, promete um minuto sem voz na cabeça. Eu acendo. A noite se abre. Eu caio. O mundo me larga. A polícia pergunta de onde eu vim; eu respondo com os ombros. Os prédios são altares que não aceitam minhas preces. Os santos nas vitrines não me olham, mas escutam meus passos. Já tive casa. Um cachorro que atendia por “Trovão”. Uma janela com sol. Um café que não era favor. Perdi as chaves de tudo, uma por uma, com datas que esqueci. No viaduto, conto rachaduras como quem aprende um salmo. Divido pão com pombos, medo de ninguém. Com fome, não dá pra ter medo. O estômago grita mais alto que as sirenes. Às vezes lembro: a risada da escola, o cheiro do feijão no domingo, um abraço que não queria acabar. Se alguém me der um nome hoje, eu devolvo com um olhar inteiro. Se me derem silêncio, eu faço dele um cobertor.

Leitura

Análise literária

O poema mais narrativo do conjunto, e o único em que o falante não é o autor. É um monólogo dramático: alguém em situação de rua fala em primeira pessoa, e o texto se sustenta inteiro na consistência dessa voz — que nunca pede pena nem se explica.

A tese está no terceiro verso, curto e isolado depois de duas linhas longas: eu tenho um nome. Todo o resto do poema é o desenvolvimento dessa afirmação contra um mundo que a nega. A cidade passa por cima; a chuva conhece o rosto melhor que a mãe; a polícia pergunta a origem e recebe os ombros como resposta.

O procedimento dominante é a inversão do sagrado para o urbano: os prédios são altares que recusam preces, os santos estão nas vitrines, as rachaduras do viaduto se contam como salmo. Não é ironia fácil — é a constatação de que a transcendência disponível ali é a que passa pela vidraça de loja.

A estrofe da casa perdida é a única em que o passado aparece, e ela funciona porque é concreta: um cachorro com nome, uma janela com sol, um café que não era favor. A precisão desses três itens faz a perda ter tamanho. Os dois versos finais devolvem a dignidade do começo — quem oferece nome recebe olhar inteiro; quem oferece silêncio, tem o silêncio transformado em abrigo.

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Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.