Poema

Autêntico

1º de outubro de 2025

Você não pode encontrar uma pessoa duas vezes, nem mesmo quando ela insiste em ser a mesma. Eu me escondia do mundo, mas nunca consegui me esconder de você. O tempo sempre me encontra no avesso, a memória me corta como vidro. Ainda assim, prefiro sangrar do que me tornar silêncio. Que a morte me encontre absurdamente vivo, sem arrependimento, com a pele marcada, os olhos cansados, mas a alma incendiada. E se houver algo depois, que seja apenas a lembrança de que vivi como quem arde, sem pedir permissão ao fogo.

Leitura

Análise literária

Verso livre, estrofes curtas, sem rima. Depois da fatura clássica de outros poemas do autor, aqui a escolha é oposta — e coerente com o assunto, porque um poema sobre não se deixar formatar dificilmente caberia numa forma fixa.

Abre com um aforismo que reescreve Heráclito: não se encontra a mesma pessoa duas vezes. O detalhe está no complemento — nem quando ela insiste em ser a mesma. A insistência é o que o verso acusa; a mudança acontece de qualquer jeito, e fingir permanência é a única forma de mentira que o poema não perdoa.

O centro é uma escolha declarada entre sangrar e silenciar, e o poema opta pela primeira. Daí a série de imagens de ferida como prova de vida: pele marcada, olhos cansados, alma incendiada. A morte aparece não como fim, mas como testemunha — que encontre o falante vivo, o que desloca o medo do morrer para o medo de já estar morto antes.

O fecho troca a chama pela lembrança da chama, e é aí que o poema se resolve: não pede permanência, pede que reste o registro de uma intensidade. Viver como quem arde, sem pedir licença ao fogo.

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Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.