Poema
Eu não sou você
17 de julho de 2021
Esse espelho.. tenho certeza algo nele não me agrada. Seria essa barba? Essa calvície? Essa olheira? Não, não é isso. Eu não me reconheço mais em você Algo mudou. Que saudade que tenho dos meus tempos de menino, Os olhos castanhos veem a magia no mundo. Com o entardecer, mudou. Você conheceu o medo. Desde então, mesmo criança nunca mais te vi. Nunca mais enxerguei o mundo daquela maneira Você arrancou as cores dos meus olhos. e agora mesmo castanhos, me sinto cego. Não há um dia que eu não sinta saudades de você. Hoje sou muitos, menos você. Uma dose por dia vai resolver o problema, por enquanto. Espero que quando eu me for, que possamos conversar um com o outro nem que seja por um minuto para que eu possa encontrar meu verdadeiro eu.
Leitura
Análise literária
Monólogo diante do espelho, em bloco único, com a segunda pessoa dirigida à própria imagem. A cisão é o assunto e também a forma: quem fala e quem é olhado são gramaticalmente distintos do primeiro verso ao último.
A abertura finge inventário físico — barba, calvície, olheira — para descartá-lo em seguida. O poema usa a lista de sinais de envelhecimento como isca, e a nega para chegar ao que interessa: não é o rosto que mudou, é o reconhecimento que se perdeu.
A imagem central é a das cores arrancadas dos olhos. Ela permite o verso mais preciso do texto: mesmo castanhos, me sinto cego. A cor permanece, a visão não — que é a definição exata do que o poema descreve, uma perda invisível de fora.
Dois versos carregam o resto. Hoje sou muitos, menos você condensa a fragmentação num paradoxo aritmético; e a menção à dose por dia, com o por enquanto que a segue, introduz o tratamento sem nomeá-lo e sem confiar nele. O fecho adia o reencontro para depois da morte e pede um minuto de conversa — o que faz do poema inteiro uma tentativa de antecipar essa conversa por escrito.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.