Poema

Curar

2025

Leitor benévolo, consente que meu coração, tímido, teça breve digressão sobre o instante em que o saber se converte em hábito de cura. De súbito, à frialdade do anfiteatro sucede o lume suave da aurora: o diploma fulge como lâmina recém-forjada, e o jaleco, recobre-me os ombros com solenidade quase litúrgica. Foram seis invernos de vigília, onde o relógio retalhou o sono em lâminas sucessivas; cada suspiro era um compêndio e cada compêndio, um degrau na escarpa da consciência. Entre sombras de anfiteatro e o murmúrio do fim, aprendi que a morte fala baixo mas ensina alto. Fundei-me, então, em ciência e dúvida, enquanto o estertor noturno dos plantões me sussurrava: Persiste. Eis que hoje ergo, não taça, senão artéria inteiriça transbordante de gratidão. Que o estilete do raciocínio, temperado em ternura, faça do meu ofício ponte entre a agonia e o alívio. Que o pulso, ora graduado em latim e formol, nunca se aparte do silêncio reverente que antecede o diagnóstico. Assim vencido o século de estudos num só lampejo declaro: entre ruína e renascer, escolho o verbo curar.

Texto referente à minha jornada do curso de Medicina.

Leitura

Análise literária

Não é poema em versos, e sim prosa poética em quatro parágrafos, com sintaxe deliberadamente arcaizante — a invocação ao leitor benévolo é fórmula da retórica clássica, e o poema a usa para marcar solenidade desde a primeira linha.

A imagem que estrutura o texto é a passagem do frio ao calor: a frialdade do anfiteatro cede ao lume da aurora. Anfiteatro é o espaço da dissecação e também o do espetáculo, e é dele que o texto parte. O diploma como lâmina recém-forjada mantém a metáfora cortante — o instrumento é o mesmo, muda o uso.

O parágrafo central converte o tempo em matéria: o relógio retalha o sono em lâminas, cada compêndio é degrau. A frase que sustenta o texto inteiro é a que diz que a morte fala baixo mas ensina alto — antítese perfeita, e a única declaração da formação médica que o poema faz sem ornamento.

O fecho é uma escolha declarada de verbo. Entre ruína e renascer, escolho o verbo curar: o poema termina no infinitivo, que é a forma da ação sem sujeito nem tempo — e portanto a forma do que se assume como ofício, não como episódio.

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Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.