Poema
Camadas
9 de junho de 2025
Sentir—algo tão estranho, Tão poderoso e, no entanto, multifacetado. Cheio de camadas, qual cebola. E quanto mais descascamos para descobrir seu interior, Mais cebola encontramos, até que nada reste, além das lágrimas. Uma busca incansável por sentido, Como se cada camada implorasse por ser revelada, Todas carregando o amargo gosto do autoconhecimento. Na ausência de água, as cebolas criam camadas mais densas, Mais difíceis de descascar e ainda mais pungentes. Anéis concêntricos—por vezes excêntricos. Há quem não aprecie as cebolas…
Leitura
Análise literária
Poema de imagem única desdobrada, construído inteiro sobre uma metáfora que se sabe humilde: o sentir como cebola. A escolha do vegetal doméstico contra a grandiloquência do tema é o primeiro acerto — impede o texto de se levar a sério demais.
A metáfora é levada às últimas consequências, e é aí que ela deixa de ser piada. Descascar não revela núcleo: revela mais cebola, até que nada reste além das lágrimas. O poema propõe uma teoria do autoconhecimento sem centro — não há um eu verdadeiro no fundo, só o processo de descascar e o choro que ele produz.
A terceira estrofe amplia com um dado real de horticultura: sem água, a cebola cria camadas mais densas e mais pungentes. O poema usa isso como o que é, uma observação técnica, e deixa o leitor fazer a transposição. O jogo entre concêntricos e excêntricos, quase idênticos no som e opostos no sentido, condensa a ideia toda num verso.
O verso final isolado — há quem não aprecie as cebolas — muda o registro de repente. Depois de três estrofes de introspecção, termina numa constatação social quase seca, com reticências. É o poema admitindo que nem todos têm paciência para esse tipo de gente.
Texto de Dr. José Victor Lisboa Cardoso Gomes. Publicação pessoal, sem conteúdo médico e sem relação com a atividade clínica.